Última atualização em setembro, 2020
Esta reflexão começa pelo conceito de suficiência e trabalho para chegar no tão esperado DESFRUTAR! De antemão, deixo claro que este conceito sempre teve uma conotação meio negativa na minha cultura! Sabe-se lá por que, mas a ideia que me vem é “fulano se dá ao desfrute!”. Isto significa um julgamento do outro como vagabundo, fútil ou pessoa preguiçosa.

Afinal, numa cultura que cultiva o trabalho como valor primário, o desfrutar realmente não parece de grande valor. Neste sentido, vamos desmistificar algumas ideias que me parecem importantes!
Trabalho nos primórdios: o sacrifício!
A palavra trabalho advém do latim tripalium (tri = três e palium= madeira) que representava um instrumento de tortura formado por três estacas afiadas de madeira. Neste sentido, desde a origem o trabalho está associado à ideia de tortura e estava relacionado à escravos e pessoas sem posse que sofriam torturas no tripalium.
Nesta linha de raciocínio, trabalhar sempre esteve associado ao sacrifício e sua derivação para o francês travailler significava sentir dor ou sofrer. Deste modo, o trabalho esteve sempre relacionado à uma atividade desagradável, difícil e exaustiva.
Segundo o Dicionário Etimológico, apenas no século XIV o trabalho ganhou um sentido mais abrangente que conhecemos hoje:
Só no século XIV começou a ter o sentido genérico que hoje lhe atribuímos, qual seja, o de “aplicação das forças e faculdades (talentos, habilidades) humanas para alcançar um determinado fim”. Disponível em: https://www.dicionarioetimologico.com.br/trabalho/
Assim, trabalho e sacrifício possuem uma profunda e antiga associação que ainda reverbera em nossos tempos! Mas, será que precisa ser assim?
Trabalho: categoria central na vida humana
Nos tempos atuais, ainda vemos muitas pessoas glorificando o trabalho duro, batendo no peito e dizendo que merecem o que têm, porque TRABALHARAM! Geralmente, esta mentalidade também está associada à julgamentos pejorativos sobre desigualdade social, violência e tantos desafios que assolam nossa sociedade contemporânea. Assim, o trabalho como valor social é algo que vemos com frequência, mas possui uma ideia muito distorcida que, por vezes, se manifesta em poder de compra, status e exaltação do ego.
De fato, poderia escrever um livro refletindo sobre a ideia de trabalho! Neste ponto, tentar simplificar as coisas aqui é um grande desafio. Isto, especialmente, porque não estou escrevendo um texto sociológico como já fiz anteriormente, a ideia aqui é que seja um texto fácil, gostoso e leve. Por isso, não vou me aprofundar em sociologia ou economia, mas vou deixar claro que sempre me fascinou a análise de Marx sobre a divisão social do trabalho, a alienação e o fetichismo da mercadoria.
Durante o mestrado, mergulhei fundo na questão do trabalho e em sua centralidade na vida do ser humano. Isto sempre ecoou profundamente dentro de mim como algo significativo!
Trabalho: significante E significativo
Deste modo, vale a pena distinguir como EU estou diferenciando significante e significativo bem como a implicação disso na busca por propósito de vida! Segundo o dicionário estas são palavras sinônimas: significante e significativo. Todavia, na minha forma de compreender: significante se refere a algo que produz impacto externo e, que PODE ou não ter um reconhecimento externo; enquanto significativo se refere mais ao que representa importância para o indivíduo INTERNAMENTE!
Neste ponto, os conceitos parecem semelhantes, mas são fundamentalmente diferentes! Afinal, eu posso realizar um trabalho significante, com resultados e até mesmo reconhecimento externo, mas me sentir vazia e infeliz. Por outro lado, posso realizar uma atividade que me preenche a alma, mas não contribui socialmente. Este último exemplo é o que costumamos chamar de hobby e é também muito importante para nossa saúde mental!
Contudo, quando pensamos no trabalho – alinhado com um propósito de vida -, é fundamental que o consideremos significante E significativo! Portanto, o trabalho que acredito central na vida humana é aquele capaz de ser SIGNIFICANTE (contribuir socialmente) e SIGNIFICATIVO (que produza sentido na vida de quem o faz). Desta forma, quando o trabalho é significante E significativo há uma satisfação que se concretiza na EXPERIÊNCIA. Ou seja, aqui podemos encontrar a suficiência no DESFRUTAR!
Infelizmente, não é este trabalho que temos em nossa sociedade contemporânea! Na maioria dos casos, o trabalho não se revela nem significante nem significativo. Ou seja, acaba por resultar num vazio existencial gigantesco, pois o indivíduo não se dedica à uma atividade que faça diferença no mundo nem que seja importante para si! Assim, trabalho e trabalhador ficam esvaziados de propósito e a vida perde o seu encanto! Leia também Suficiência: foco e decisão sobre o que realmente importa na vida!
Suficiência e Trabalho para desfrutar com propósito!
“O futuro pertence a quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo, enfim, com o ‘ócio criativo'”. Domenico De Masi
Esta frase e o documentário Quanto Tempo o Tempo Tem, propõem um cenário muito mais amplo para pensar a categoria trabalho na vida humana! E, neste momento, em que meu desafio é pensar sobre suficiência, esta perspectiva nova sobre o trabalho ganhou uma conotação ainda mais forte!
Este documentário traz a dimensão de nosso bem mais valioso: o tempo! Ele não é dinheiro, como diz o ditado popular! Tempo é vida! Tempo é escolha de vida! Neste ponto, faço a provocação: no que você escolhe dedicar seu tempo? Esta é a grande angústia contemporânea em que categorias como tempo e lugar foram alteradas com o advento da tecnologia!
Afinal, apesar de conseguir participar de uma reunião no Japão em tempo recorde ou de conseguir executar muito mais atividades em diferentes lugares, o NOSSO tempo na Terra continua limitado. Esta é a angústia existencial do ser humano, saber de sua finitude e isto deveria acrescentar ainda mais valor à nossa vida ao invés de nos amedrontar tanto! Leia também 5° Passo para ser feliz: TRABALHAR COM PROPÓSITO!
Suficiência: a arte de desfrutar
A experiência de desfrutar, compreendida como usufruir, precisa ser RESSIGNIFICADA de forma ampla para que possamos atingir o conceito de suficiência! Isto porque, quando estamos preocupados com os resultados, deixamos de nos concentrar na experiência e de desfrutar aquele momento de forma profunda e concentrada. Ou seja, perdemos o aqui e agora pensando no passado ou preocupados com o futuro e, assim, nos desconectamos da EXPERIÊNCIA! Vale a pena assistir ao documentário A Experiência para refletir mais a respeito!
Desta forma, permitir-se DESFRUTAR é um ato de amor consigo mesmo! Trata-se de acreditar que todos os instantes são suficientes em si, eles carregam nossos aprendizados e nossa capacidade de expressar nosso SER no mundo! Assim, o trabalho precisa ser ressignificado para que possa nos conectar com a ideia de desfrutar a suficiência.
Ao invés de trabalhar para acumular, precisamos do trabalho para DESFRUTAR a experiência, o aprendizado e cada momento deste tempo finito que temos. Logo, fica clara a relação entre trabalho e suficiência quando este surge como atividade que nos permite usar nosso potencial para desfrutar a experiência do momento! Vale a pena ler também Criatividade para se libertar! Como ampliar seu olhar para a vida?!
Particularmente, confesso que sinto ansiedade para desfrutar! Isto porque, minha mente ainda funciona no padrão medo/escassez! Assim, penso que tenho que aproveitar ao máximo, porque nunca mais viverei aquele momento, isso me atrapalha muito! Racionalmente, sei que todos os momentos são únicos e apenas quando acalmo minha mente e penso na SUFICIÊNCIA, consigo verdadeiramente me conectar com o momento presente e realmente DESFRUTAR!
Gratidão pela leitura! Namastê!
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